Pierre Lévy [2] 1998
Em vermelho, ou
azul grafos e/ou notas nesta
reprodução [3].
Toda e qualquer reflexão séria sobre o devir dos
sistemas de educação e formação na cybercultura deve apoiar-se numa análise
prévia da mutação contemporânea da relação com o saber. A esse respeito, a
primeira constatação envolve a velocidade do surgimento e da renovação dos
saberes e do know-how. Pela primeira vez na história da humanidade, a maioria das
competências adquiridas por uma pessoa no começo de seu percurso profissional
serão obsoletas no fim de sua carreira. A segunda constatação, fortemente
ligada à primeira, concerne à nova natureza do trabalho, na qual a parte de
transação de conhecimentos não pára de crescer. Trabalhar equivale cada vez
mais a aprender, transmitir saberes e produzir conhecimentos. Terceira
constatação: o ciberespaço suporta tecnologias intelectuais que ampliam,
exteriorizam e alteram muitas funções cognitivas humanas: a memória (bancos de
dados, hipertextos, fichários digitais [numéricos] de todas as ordens), a
imaginação (simulações), a percepção (sensores digitais, telepresença,
realidades virtuais), os raciocínios (inteligência artificial, modelização de
fenômenos complexos).
Tais tecnologias intelectuais favorecem novas formas
de acesso à informação, como: navegação hipertextual, caça de informações
através de motores de procura, knowbots, agentes de software, exploração
contextual por mapas dinâmicos de dados, novos estilos de raciocínio e
conhecimento, tais como a simulação, uma verdadeira industrialização da
experiência de pensamento, que não pertence nem à dedução lógica, nem à indução
a partir da experiência.
Devido ao fato de que essas tecnologias intelectuais,
sobretudo as memórias dinâmicas, são objetivadas em documentos numéricos
(digitais) ou em softwares disponíveis em rede (ou de fácil reprodução e
transferência), elas podem ser partilhadas entre um grande número de
indivíduos, incrementando, assim, o potencial de inteligência coletiva dos
grupos humanos.
O saber-fluxo, o saber-transação de conhecimento, as
novas tecnologias da inteligência individual e coletiva estão modificando
profundamente os dados do problema da educação e da formação. O que deve ser
aprendido não pode mais ser planejado, nem precisamente definido de maneira
antecipada. Os percursos e os perfis de competência são, todos eles,
singulares e está cada vez menos possível canalizar-se em programas ou
currículos que sejam válidos para todo o mundo. Devemos
construir novos modelos do espaço dos conhecimentos. A uma representação em
escalas lineares e paralelas, em pirâmides estruturadas por «níveis»,
organizadas pela noção de pré-requisitos e convergindo até saberes
«superiores», tornou-se necessário doravante preferir a imagem de espaços de
conhecimentos emergentes, abertos, contínuos, em fluxos, não-lineares, que se
reorganizam conforme os objetivos ou contextos e nos quais cada um ocupa uma
posição singular e evolutiva.
Assim sendo, tornam-se necessárias duas grandes
reformas dos sistemas de educação e formação. Primeiro, a adaptação dos
dispositivos e do espírito do aprendizado aberto e à distância (AAD) no
cotidiano e no ordinário da educação. É verdade que o AAD explora certas
técnicas do ensino à distância, inclusive a hipermídia, as redes interativas de
comunicação e todas as tecnologias intelectuais da cybercultura. O essencial, porém,
reside num novo estilo de pedagogia que favoreça, ao mesmo tempo, os
aprendizados personalizados e o aprendizado cooperativo em rede. Nesse quadro, o docente vê-se chamado a tornar-se um animador
da inteligência coletiva de seus grupos de alunos, em vez de um dispensador
direto de conhecimentos.
A segundo reforma envolve o reconhecimento
do aprendido. Ainda que as pessoas
aprendam em suas experiências profissionais e sociais, ainda que a escola e a
universidade estejam perdendo progressivamente seu monopólio de criação e
transmissão do conhecimento, os sistemas de ensino públicos podem ao menos
dar-se por nova missão a de orientar os percursos individuais no saber e
contribuir para o reconhecimento do conjunto de know-how das pessoas, inclusive
os saberes não-acadêmicos. As ferramentas do ciberespaço permitem considerar
amplos sistemas de testes automatizados acessíveis a todo o momento e redes de
transação entre a oferta e a demanda de competência. Ao organizar a comunicação
entre empregadores, indivíduos e recursos de aprendizado de todas as ordens, as
universidades do futuro estariam contribuindo para a animação de uma nova
economia do conhecimento.
Este capítulo e o próximo desenvolvem as idéias que
acabam de ser expostas e propõem, a título de conclusão, certas soluções
práticas (as «árvores de conhecimentos»).
Em um de meus cursos na Universidade Paris-8,
intitulado “Tecnologias digitais e mutações culturais”, eu peço para cada
estudante apresentar uma exposição de dez minutos. Na véspera das exposições,
devo receber uma síntese de duas páginas, acompanhada de uma bibliografia, que
poderá eventualmente ser fotocopiada pelos outros estudantes que desejem aprofundar
a questão.
Em 1995, um deles me entregou suas duas páginas de
resumo, dizendo com um certo mistério: “Aqui está! Trata-se de uma exposição
virtual!” Por mais que eu leia seu trabalho sobre os instrumentos musicais
digitais, não vejo o que o diferencia das sínteses habituais: um título em
negrito, subtítulos, palavras sublinhadas num texto bastante bem articulado,
uma bibliografia. Divertido com meu ceticismo, leva-me até a sala dos
computadores e, acompanhados por outros estudantes, instala-nos diante de um
terminal. Descubro, então, que as duas páginas de resumo a que eu havia
recorrido no papel eram a projeção impressa de páginas da Web.
Em vez de um texto localizado, fixado num
suporte de celulose, no lugar de um pequeno território com um autor
proprietário, um começo, um fim, margens formando fronteiras, eu me via diante
de um documento dinâmico, aberto, onipresente, que me remetia para um corpus
praticamente infinito. O mesmo texto mudara de natureza. Fala-se em «página» em
ambos os casos, mas a primeira página é um pagus, um campo delimitado,
apropriado, semeado de sinais arraigados, a outra é uma unidade de fluxos,
sujeita às obrigações do caudal nas redes. Mesmo referindo-se a artigos ou
livros, a primeira página está fisicamente fechada. A segunda, ao contrário,
conecta-nos técnica e imediatamente a páginas de outros documentos, espalhadas
por todo o planeta, que por sua vez nos remetem indefinidamente a outras
páginas, a outras gotas do mesmo oceano mundial de sinais flutuantes.
A partir da invenção de uma pequena equipe do CERN, a
World Wide Web propagou-se como pólvora entre os usuários da internet para
tornar-se, em poucos anos, um dos principais eixos de desenvolvimento do
ciberespaço. Talvez isso não expresse mais do que uma tendência provisória.
Mas, pelos laços que ela lança para o resto da rede, pelos cruzamentos ou as
bifurcações que propõe, constitui-se também numa seleção organizadora, um
agente estruturante, uma filtragem desse corpus. Cada elemento desse
incircunscritível novelo é, ao mesmo tempo, um pacote de informação e um
instrumento de navegação, uma parte do estoque e um ponto de vista original
sobre o referido estoque. Numa face, a página Web forma a gotinha de um tudo
fugidio, enquanto na outra face propõe um filtro peculiar do oceano de
informações.
Na Web, tudo está no mesmo plano. Não obstante, tudo
está diferenciado. Não há nenhuma hierarquia absoluta, e cada sítio é um agente
de seleção, de encaminhamento ou de hierarquização parcial. Longe de ser uma
massa amorfa, a Web articula uma multidão aberta de pontos de vista; porém,
essa articulação opera-se transversalmente, em rizoma, sem ponto de vista de
Deus, sem unificação superior. Que esse estado de coisas gera confusão, cada um
o reconhece. Novos instrumentos de indexação e pesquisa precisam ser
inventados, conforme atesta a riqueza dos trabalhos atuais sobre a cartografia
dinâmica dos espaços de dados, os “agentes” inteligentes ou a filtragem
cooperativa das informações. Ainda assim, quaisquer que sejam os progressos
vindouros das técnicas de navegação, é muito provável que o ciberespaço
conserve sempre seu caráter profuso, aberto, radicalmente heterogêneo e
não-totalizável.
Sem fechamento semântico ou estrutural, a Web
tampouco está parada no tempo. Aumenta, mexe-se e transforma-se sem parar. A
World Wide Web está fluindo, escoando. Suas inumeráveis fontes, suas
turbulências, sua irresistível ascensão oferecem uma fantástica imagem da cheia
contemporânea de informação. Cada reserva de memória, cada grupo, cada
indivíduo, cada objeto pode tornar-se emissor e aumentar o fluxo. A esse
respeito e de maneira colorida, Roy Ascott fala do segundo dilúvio. O dilúvio
de informações. Para o melhor ou o pior, esse dilúvio não será acompanhado por
nenhum refluxo. Devemos acostumarmo-nos a essa profusão e a essa desordem. A
não ser alguma catástrofe cultural, nenhum grande reordenamento, nenhuma
autoridade central nos levará de volta à terra firme, nem às paisagens estáveis
e bem balizadas anteriores à inundação.
O ponto da virada histórica da relação com o saber
situa-se provavelmente no fim do século XVIII, naquele momento de frágil
equilíbrio em que o mundo antigo brilhava com suas melhores luzes, enquanto as
fumaças da revolução industrial começavam a mudar a cor do céu. Quando Diderot
e d’Alembert publicavam sua grande Enciclopédia. Até aquele momento, então, um
pequeno grupo de homens podia ter a esperança de dominar a totalidade dos
saberes (ou ao menos os principais) e propor aos outros o ideal desse domínio.
O conhecimento ainda podia ser totalizado, somado. A partir do século XIX, com
a ampliação do mundo, com a progressiva descoberta de sua diversidade, com o
crescimento cada vez mais rápido dos conhecimentos científicos e técnicos, o
projeto de domínio do saber por um indivíduo ou um pequeno grupo tornou-se cada
vez mais ilusório. Tornou-se hoje evidente, tangível para todos, que o
conhecimento passou definitivamente para o lado do não-totalizável, do indominável.
Não podemos senão desistir.
A emergência do ciberespaço não significa em absoluto
que “tudo” esteja enfim acessível, mas que o tudo está definitivamente fora de
alcance. O que salvar do dilúvio? O que é que colocaremos na arca? Pensar que
poderíamos construir uma arca que contivesse o “principal” seria precisamente
ceder à ilusão da totalidade. Todos nós, instituições, comunidades, grupos
humanos, indivíduos, necessitamos construir um significado, providenciar zonas
de familiaridade, domesticar o caos ambiente. Mas, por um lado, cada um deve
reconstruir à sua maneira totalidades parciais, de acordo com seus próprios
critérios de pertinência. Por outro lado, essas zonas apropriadas de
significado deverão necessariamente ser móveis, mutantes, em devir. De modo
que, à imagem da grande arca, devemos substituir a flotilha de pequenas arcas,
botes ou sampanas, uma miríade de pequenas totalidades, diferentes, abertas e
provisórias, segregadas por filtragem ativa, perpetuamente retomadas pelos
coletivos inteligentes que se cruzam, se chamam, se chocam ou se misturam nas
grandes águas do dilúvio informacional.
Hoje, pois, as metáforas centrais da relação com o
saber são a navegação e o surfe, que implicam uma capacidade para enfrentar as
ondas, os turbilhões, as correntes e os ventos contrários numa extensão plana,
sem fronteiras e sempre mutante. Em contrapartida, as velhas metáforas da
pirâmide (escalar a pirâmide do saber), da escala (sic. escola?) K [4] ou do curso (já todo traçado) têm aquele cheiro
gostoso das hierarquias imóveis de outrora.
As páginas Web expressam as idéias, os desejos, os
saberes, as ofertas de transação de pessoas e grupos humanos. Atrás do grande
hipertexto está borbulhando a multidão e suas relações. No ciberespaço, o saber
não pode mais ser concebido como algo abstrato ou transcendente. Está se
tornando cada vez mais evidente — e até tangível em tempo real — que esse saber
expressa uma população. Não só as páginas Web são assinadas, igualmente às
páginas de papel, como também costumam desembocar numa comunicação direta,
interativa, via correio digital, fórum eletrônico, ou outras formas de
comunicação por mundos virtuais, como os MUDs ou os MOOs. Assim, ao contrário
do que a vulgata mediática deixa crer sobre a pretensa “frieza” do ciberespaço,
as redes digitais interativas são potentes fatores de personalização ou
encarnação do conhecimento.
Devemos lembrar sem cansar a inanidade do esquema da
substituição. Da mesma maneira que a comunicação pelo telefone não tem impedido
as pessoas de encontrarem-se fisicamente, pois usamos o telefone para marcar
nossos encontros, a comunicação por mensagens eletrônicas muitas vezes prepara
viagens físicas, colóquios ou reuniões de negócio. Mesmo quando não acompanha
algum encontro material, a interação no ciberespaço não deixa de ser uma forma
de comunicação. Ouve-se às vezes, porém, o argumento de
que certas pessoas passam horas “frente à tela”, isolando-se dos outros. Não
resta dúvida de que não podemos encorajar os excessos. Mas será que dizemos de
quem lê que ele “passa horas diante de papel”? Não. Porque a pessoa que lê não
está se relacionando com uma folha de celulose, mas está em contato com um
discurso, com vozes, com um universo de significado que ela contribui para
construir, para habitar com sua leitura. Que o texto esteja numa tela não muda
em nada o fundo da questão. Trata-se ainda de leitura, embora, conforme vimos,
as modalidades da leitura tendam a transformar-se com os hipertextos e a interconexão
geral.
Ainda que os suportes de informação não determinem
automaticamente tal ou qual conteúdo de conhecimento, eles não deixam de
contribuir para estruturar fortemente a «ecologia cognitiva» das sociedades.
Pensamos com e em grupos e instituições que tendem a reproduzir suas
idiossincrasias impregnando-nos com seu clima emocional e seus funcionamentos
cognitivos. Nossas faculdades para conhecer trabalham com línguas, sistemas de
sinais e procedimentos intelectuais fornecidos por uma cultura. Não se multiplica
da mesma maneira com cordas, nós, pedras, números romanos, números arábicos,
ábacos, réguas de cálculo ou calculadoras. Ao não oferecer as mesmas imagens do
mundo, os vitrais das catedrais e as telas de televisor não suscitam os mesmos
imaginários. Certas representações não podem sobreviver por muito tempo numa
sociedade sem escrita (números, tabelas, listas), enquanto é fácil arquivá-las
graças às memórias artificiais. Para codificar seus
saberes, as sociedades sem escrita desenvolveram técnicas de memória apoiadas
no ritmo, no relato, na identificação, na participação do corpo e na emoção
coletiva. Com a ascensão da escrita, ao contrário, o saber pôde desvencilhar-se
parcialmente das identidades pessoais ou coletivas, tornar-se mais «crítico», almejar
uma certa objetividade e um alcance teórico «universal». Não são apenas
os modos de conhecimento que dependem dos suportes de informação e das técnicas
de comunicação. Também são, pelo intermédio das ecologias cognitivas que elas
condicionam, os valores e os critérios de julgamentos das sociedades. Ora, são
precisamente os critérios de avaliação do saber (no sentido mais amplo da
palavra) que entram no jogo com a extensão da cybercultura, com o provável, já
observável, declínio dos valores vigentes na civilização estruturada pela
escrita estática. Não é que esses valores sejam chamados a desaparecer, mas
tornar-se-ão secundários, perderão seu poder de comando.
Mais importante talvez do que os gêneros de
conhecimentos e os critérios de valor que as polarizam, cada ecologia cognitiva
favorece certos atores, postos no centro dos processos de assimilação e
exploração do saber. Aqui a questão não é mais «como?», nem «segundo que
critérios?», mas «quem?».
Nas sociedades anteriores à escrita, o
saber prático, mítico e real é encarnado pela comunidade viva. A morte de um velho é uma biblioteca em
chamas. Com o advento da escrita, o
saber é carregado pelo livro. O livro, único, indefinidamente interpretável,
transcendente, que contém supostamente tudo: a Bíblia, o Alcorão, os textos
sacros, os clássicos, Confúcio, Aristóteles… No caso, o intérprete é que domina
o conhecimento. Desde a prensa até esta manhã, um terceiro tipo de conhecimento
vê-se assombrado pela figura do cientista, do científico. No caso, o saber não
é mais carregado pelo livro, mas sim pela biblioteca. A Enciclopédia de Diderot
e d’Alembert é menos um livro do que uma biblioteca. O saber é estruturado por
uma série de remissões, assombrado, talvez desde sempre, pelo hipertexto. O
conceito, a abstração ou o sistema servem, então, para condensar a memória e
garantir um domínio intelectual que a inflação dos conhecimentos já está pondo
em perigo.
Talvez a desterritorialização da biblioteca a que
estamos presenciando hoje não seja senão o prelúdio do surgimento de um quarto
tipo de relação com o conhecimento. Por uma espécie de
volta em espiral até a oralidade das origens, o saber poderia novamente ser
carregado pelas coletividades humanas vivas, do que por suportes separados,
servidos por intérpretes ou cientistas. Só que, dessa vez, ao contrário da
oralidade arcaica, o carregador direto do saber não seria mais a comunidade
física e sua memória carnal, mas sim o ciberespaço, a região dos mundos
virtuais pelo intermédio dos quais as comunidades descobrem e constróem seus
objetos e se conhecem como coletivos inteligentes.
Os
sistemas e os conceitos estão doravante cedendo terreno aos finos mapas das
singularidades, à
descrição detalhada dos grandes objetos cósmicos, dos fenômenos da vida ou das
matérias humanas. Tomemos todos os
grandes projetos técnico-científicos contemporâneos: física das partículas,
astrofísica, genoma humano, espaço, nanotecnologias, acompanhamento das
ecologias e dos climas… estão todos suspensos ao ciberespaço e às suas ferramentas.
Os bancos de dados de imagens, as simulações interativas e as conferências
eletrônicas permitem um melhor conhecimento do mundo do que a abstração
teórica, relegada ao segundo plano. Ou melhor, eles definem a nova norma do
conhecimento. Além disso, tais ferramentas permitem uma eficaz coordenação dos
produtores de saber, enquanto teorias e sistemas suscitavam antes a adesão ou o
conflito. É impressionante constatar que certas experiências realizadas nos
grandes aceleradores de partículas mobilizam tantos recursos, são tão complexas
e difíceis de interpretar que elas mal ocorrem mais de uma vez. Cada
experiência é quase que singular. Isso parece contradizer o ideal de
reprodutibilidade da ciência clássica. Ainda assim, essas experiências
continuam universais; porém, de outra maneira que não a possibilidade de
reprodução. Delas participam uma multidão de cientistas de todos os países, que
formam uma espécie de microcosmo ou de projeção da comunidade internacional.
Mas, e sobretudo, o contato direto com a experiência praticamente desapareceu
em proveito da produção em massa de dados numéricos. Ora, esses dados podem ser
consultados e processados num grande número de laboratórios espalhados, graças
aos instrumentos de comunicação e processamento do ciberespaço. Assim, o
conjunto da comunidade científica pode participar dessas experiências muito
particulares, as quais são outros tantos eventos. A universidade apóia-se,
pois, sobre a interconexão em tempo real da comunidade científica, sua
participação cooperativa nos eventos que lhe concernem, mais do que sobre a
depreciação do evento singular que caracterizava a antiga universalidade das
ciências exatas.
Entre os novos gêneros de conhecimento
carregados pela cybercultura, a simulação ocupa um lugar central. Numa palavra,
trata-se de uma tecnologia intelectual que decuplica a imaginação individual
(aumento da inteligência) e permite que grupos partilhem, negociem e refinem
modelos mentais comuns, qualquer que seja a complexidade de tais modelos
(aumento da inteligência coletiva). Para
incrementar e transformar certas capacidades cognitivas humanas (a memória, a
imaginação, o cálculo, o raciocínio expert), a informática exterioriza
parcialmente essas faculdades em suportes numéricos. Ora, ao serem
exteriorizados e reificados, esses processos cognitivos tornam-se partilháveis,
reforçando, portanto, os processos de inteligência coletiva… desde que as
técnicas sejam utilizadas com discernimento.
Até os sistemas experts (ou sistemas baseados em
conhecimentos), tradicionalmente postos na categoria «inteligência artificial»,
deveriam ser considerados como técnicas de comunicação e mobilização rápida dos
know-how de práticas nas organizações, mais do que como duplicações de experts
humanos. Tanto no plano cognitivo quanto na organização do trabalho, as
tecnologias intelectuais devem ser pensadas em termos de articulação e postas
em sinergia, mais do que de acordo com o esquema da substituição.
As técnicas de simulação, em particular as que
envolvem imagens interativas, não substituem os raciocínios humanos, mas
prolongam e transformam as capacidades de imaginação e pensamento. Com efeito,
nossa memória de longo prazo tem a capacidade para armazenar uma quantidade
muito grande de informações e conhecimentos. Nossa memória de curto prazo, que
contém as representações mentais às quais prestamos deliberadamente nossa
atenção, possui, ao contrário, capacidades muito limitadas. Para nós é
impossível, por exemplo, representarmos clara e distintamente mais de uma
dezena de objetos em interações.
Embora possamos evocar mentalmente a imagem do
castelo de Versalhes, não conseguimos contar suas janelas «em nossa cabeça». O
grau de resolução da imagem mental não é suficiente. Para chegar a esse nível
de detalhe, necessitamos de uma memória auxiliar externa (gravura, fotografias,
pintura), graças à qual poderemos efetuar novas operações cognitivas: contar,
medir, comparar, etc. A simulação é uma ajuda para a memória de curto prazo que
envolve não imagens fixas, textos ou tabelas de números, e sim dinâmicas
complexas. A capacidade de fazer variar facilmente os parâmetros de um modelo e
observar de imediato e visualmente as conseqüências dessa variação constitui-se
numa verdadeira ampliação da imaginação.
Hoje em dia, a simulação exerce um papel
crescente nas atividades de pesquisa científica, de concepção industrial, de
gestão, de aprendizado, mas também para o jogo e a diversão (em especial os
jogos interativos na tela). Em teoria, em experiência, a maneira de
industrialização da experiência de pensamento – a simulação – é um modo
especial de conhecimento, próprio da cybercultura nascente. Na pesquisa, seu
principal interesse não está, evidentemente, na substituição da experiência,
nem em fazer as vezes de realidades, mas em permitir a formulação e a rápida
exploração de um grande número de hipóteses. Sob o ângulo da inteligência
coletiva, ela permite a colocação em imagens e a partilha de mundos virtuais e
de universos de significado de uma grande complexidade.
Doravante, os saberes são codificados em bancos de
dados acessíveis em linha, em mapas alimentados em tempo real pelos fenômenos
do mundo e em simulações interativas. A eficiência, a fecundidade heurística, o
poder de mutação e bifurcação, a pertinência temporal e contextual dos modelos
estão suplantando os antigos critérios de objetividade e universalidade
abstrata. Está presente, no entanto, uma forma mais concreta de universalidade
pela capacidades de conexão, o respeito de padrões ou formatos, a
compatibilidade ou a interpolaridade planetária.
Destotalizado, o saber flutua. Donde vem um violento
sentimento de desorientação. Deveremo-nos crispar nos procedimentos e esquemas
que garantiam a antiga ordem do saber? Não devermos, ao contrário, dar um pulo
e penetrar em cheio na nova cultura, que oferece remédios específicos para os
males que a mesma gera? É certo que a interconexão em tempo real de todos com
todos é a causa da desordem. Mas ela é também a condição de possibilidade das
soluções práticas para os problemas de orientação e aprendizado no universo do
saber em fluxo. Com efeito, essa interconexão favorece os processos de
inteligência coletiva nas comunidades virtuais, graças a que o indivíduo vê-se
menos desprovido frente ao casos informacional.
Mais precisamente, o ideal mobilizador da
informática não é mais a inteligência artificial (tornar uma máquina tão
inteligente, mais inteligente até, quanto um homem), mas sim a inteligência
coletiva, isto é, a valorização, a utilização otimizada e a colocação em
sinergia das competências, imaginações e energias intelectuais,
independentemente de sua diversidade qualitativa e de sua localização. Esse ideal
da inteligência coletiva passa evidentemente pela colocação em comum da
memória, da imaginação e da experiência, por uma prática banalizada do
intercâmbio de conhecimentos, por novas formas, flexíveis e em tempo real, de
organização e coordenação. Embora as
novas técnicas de comunicação favoreçam o funcionamento, em inteligência
coletiva, dos grupos humanos, cabe repetir que elas não o determinam de maneira
automática. A defesa de poderes
executivos, das rigidezes institucionais, a inércia das mentalidades e das
culturas podem evidentemente levar a utilizações sociais das novas tecnologias
muito menos positivas, conforme critérios humanistas.
O ciberespaço, interconexão dos computadores do
planeta, tende a tornar-se a maior infra-estrutura da produção, da gestão, da
transação econômica. Em breve, constituirá o principal equipamento coletivo
internacional da memória, do pensamento e da comunicação. Em suma, daqui a
algumas décadas, o ciberespaço, suas comunidades virtuais, suas reservas de
imagens, suas simulações interativas, sua irreprimível profusão de textos e
sinais serão o mediador essencial da inteligência coletiva da humanidade. Com
esse novo suporte de informação e comunicação, estão emergindo gêneros de
conhecimentos inéditos, critérios de avaliação inéditos para orientar o saber,
os novos atores na produção e no processamento dos conhecimentos. Toda e
qualquer política de educação deverá levá-lo em consideração.
Os sistemas de educação estão sofrendo hoje novas
obrigações de quantidade, diversidade e velocidade de evolução dos saberes. Num
plano puramente quantitativo, jamais foi tão maciça a demanda por formação. Em
muitos países, a maioria de uma classe etária é que recebe um ensino de segundo
grau. As universidades estão mais do que lotadas. Os dispositivos de formação
profissional e contínua estão saturados. A título de imagem, dir-se-á que
metade da sociedade está, ou gostaria de estar, na escola.
Será impossível aumentar o número de
professores proporcionalmente à demanda de formação que é, em todos os países
do mundo, cada vez mais diversa e maciça.
A questão do custo do ensino surge mais especialmente nos países pobres. Ou
seja, será
necessário decidir-se a encontrar soluções que apelem para técnicas capazes de
multiplicar o esforço pedagógico dos professores e dos formadores. Audiovisual,
«multimídia» interativa, ensino assistido por computador, televisão educativa,
cabo, técnicas clássicas de ensino à distância fundamentadas essencialmente na
escrita, monitorado por telefone, fax ou internet… Todas essas
possibilidades técnicas, de uma maior ou menor pertinência conforme seu
conteúdo, a situação, as necessidades do «aprendiz», podem ser consideradas e
já têm sido amplamente testadas e experimentadas. Tanto
no plano das infra-estruturas materiais quanto no dos custos de operação,
escolas e universidades «virtuais» custam menos do que as escolas e
universidades que ministram em «presencial».
A demanda por formação não só está passando por um
enorme crescimento quantitativo, como também está sofrendo uma profunda mutação
qualitativa, no sentido de uma crescente necessidade de diversificação e
personalização. Os indivíduos suportam cada vez menos acompanhar cursos
uniformes ou rígidos que não correspondem às suas reais necessidades e à
especificidade de seus trajetos de vida. Uma resposta ao crescimento da
demanda por uma massificação da oferta (mais da mesma coisa, com o fim de
alcançar economias de escala) seria uma resposta «industrialista» à antiga,
inadaptada à flexibilidade e à diversidade futuramente requeridas.
Vê-se como o novo paradigma da navegação
(em oposição ao do «cursus»), que se está desenvolvendo nas práticas de coleta
de informação e de aprendizado cooperativo no seio do ciberespaço, mostra a via
de um acesso ao mesmo tempo maciço e personalizado ao conhecimento.
As universidades e, cada vez mais, as escolas de
primeiro e segundo graus oferecem aos estudantes a possibilidade de navegar
sobre o oceano de informação e conhecimento acessível pela internet. Programas
educativos podem ser seguidos à distância pela World Wide Web. Os correios e as
conferências eletrônicas servem para a monitorização inteligente e são postos
ao serviço de dispositivos de aprendizado cooperativo. Os suportes hipermídia
(CD-ROM, bancos de dados multimídia interativos e em linha) permitem acessos
intuitivos rápidos e atrativos a grandes conjuntos de informação. Sistemas de
simulação permitem que os aprendizes se familiarizem de maneira prática e
barata com objetos ou fenômenos complexos sem, por isso, sujeitarem-se a
situações perigosas ou difíceis de controlar.
Os especialistas da área reconhecem que a
distinção entre ensino «em presencial» e ensino «à distância» será cada vez
menos pertinente, pois o uso das redes de telecomunicação e dos suportes
multimídia interativos está integrando-se progressivamente às formas de ensino
mais clássicas (1) K [I]. O aprendizado à
distância tem sido durante muito tempo o «estepe» do ensino e, em breve,
tornar-se-á, se não a norma, ao menos a cabeça pesquisadora. Com
efeito, as características do AAD são semelhantes às da sociedade da informação
em seu conjunto (sociedade de rede, de velocidade, de personalização, etc.).
Além disso, esse tipo de ensino está em sinergia com as «organizações
aprendizes» que uma nova geração de administradores está procurando implantar
nas sociedades.
O aprendizado cooperativo e o novo papel dos
docentes
O ponto essencial aqui é a mudança
qualitativa nos processos de aprendizado. Procura-se
menos transferir cursos clássicos em formatos hipermídia interativos ou «abolir
a distância» do que implementar novos paradigmas de aquisição dos conhecimentos
e de constituição dos saberes. A direção mais promissora, que aliás traduz
a perspectiva da inteligência coletiva no campo educativo, é a do aprendizado
cooperativo.
Certos dispositivos informatizados de aprendizado de
grupo foram especialmente concebidos para a partilha de diversos bancos de
dados e o uso de conferências e mensagens eletrônicas. Fala-se, então, em
aprendizado cooperativo assistido por computador (em inglês: Computer Supported
Cooperative Learning ou CSCL). Nos novos «campos
virtuais», professores e estudantes põem em comum os recursos materiais e
informacionais à sua disposição. Os professores aprendem ao mesmo tempo que os
estudantes e atualizam continuamente tanto seus saberes «disciplinares» quanto
suas competências pedagógicas. (A formação contínua dos docentes é uma das
aplicações mais evidentes dos métodos do aprendizado aberto e à distância).
As últimas informações atualizadas tornam-se fácil e
diretamente acessíveis por intermédio dos bancos de dados em linha e a www. Os
estudantes podem participar de conferências eletrônicas desterritorializadas,
nas quais intervêm os melhores pesquisadores de sua disciplina. Assim sendo, a
função-mor do docente não pode mais ser uma «difusão dos conhecimentos», executada doravante com uma eficácia maior por outros meios. Sua competência deve deslocar-se para o lado do incentivo
para aprender e pensar. O docente torna-se um animador da inteligência coletiva
dos grupos dos quais se encarregou. Sua
atividade terá como centro o acompanhamento e o gerenciamento dos aprendizados:
incitação ao intercâmbio dos saberes, mediação relacional e simbólica,
pilotagem personalizada dos percursos de aprendizado, etc.
As reflexões e as práticas sobre a incidência das
novas tecnologias na educação têm-se desenvolvido em diversos eixos. Muitos trabalhos, por exemplo, foram realizados sobre a
«multimídia», enquanto suporte de ensino, ou sobre os computadores, como
substitutos incansáveis dos professores (ensino assistido por computador ou
EAC). Nessa visão — extremamente clássica — a informática oferece máquinas de
ensinar. Seguido outra abordagem, os
computadores são considerados como instrumentos de comunicação, de pesquisa, de
informação, de cálculo, de produção de mensagens (textos, imagens ou som) a
serem postos nas mãos dos «aprendizes». A perspectiva aqui adotada
também é diferente. O uso crescente das tecnologias digitais e das redes de
comunicação interativa está acompanhando e ampliando uma profunda mutação da
relação com o saber, da qual tentei traçar as grandes linhas neste capítulo. Ao
prolongar certas capacidades cognitivas humanas (memória, imaginação,
percepção), as tecnologias intelectuais com suporte digital estão redefinindo
seu alcance, seu significado, às vezes até sua natureza. As novas possibilidades
de criação coletiva distribuída, de aprendizado cooperativo e de colaboração em
rede propiciada pelo ciberespaço estão questionando o funcionamento das
instituições e os modos habituais de divisão do trabalho, tanto nas empresas
quanto nas escolas.
Como manter as práticas pedagógicas em fase com
processos de transação de conhecimento em via de rápida transformação e, no
futuro, densamente divulgados na sociedade? Não se trata aqui de utilizar a
qualquer custo as tecnologias, mas sim de acompanhar consciente e
deliberadamente uma mudança de civilização que está questionando profundamente
as formas institucionais, as mentalidades e a cultura dos sistemas educativos
tradicionais e, notadamente, os papéis de professor e aluno.
O que está em jogo na cybercultura, tanto no plano da
redução dos custos como no do acesso de todos à educação, não é tanto a
passagem do «presencial» para a «distância» e, tampouco, da escrita e do oral
tradicionais para a «multimídia». É sim a transição
entre uma educação e uma formação estritamente institucionalizada (escola,
universidade) e uma situação de intercâmbio generalizado dos saberes, de ensino
da sociedade por ela mesma, de reconhecimento autogerido, móvel e contextual
das competências. Nesse quadro, o papel
do poder público haveria de ser:
1) garantir a cada um uma formação elementar de
qualidade (2) K [II];
2) permitir para todos um acesso aberto e gratuito a
mediatecas (sic.
midiatecas?), centros de orientação, documentação e autoformação, a
pontos de entrada no ciberespaço, sem negligenciar a indispensável mediação
humana do acesso ao conhecimento;
3) regular e animar uma nova economia do conhecimento,
na qual cada indivíduo, cada grupo, cada organização sejam considerados como
recursos potenciais de aprendizado ao serviço de percursos de formação
contínuos e personalizados.
Desde o fim dos anos 60 do presente (passado)
século, os seres humanos têm começado a experimentar uma relação com os
conhecimentos e os know-how que seus ancestrais desconheciam. Com efeito, antes deste período, as competências adquiridas
na juventude via de regra continuavam em uso no fim da vida ativa. Tais
competências até eram transmitidas de maneira quase idêntica para os jovens ou
aprendizes. A bem da verdade, novos procedimentos, novas técnicas
surgiam. Contudo, inovações que se destacassem num fundo de estabilidade eram a
exceção. Na escala de uma vida humana, a maior parte
dos know-how úteis sutis eram perenes. Ora, em nossos dias, a situação
mudou radicalmente, pois a maioria dos saberes adquiridos no começo de uma
carreira estarão obsoletos no fim de um percurso profissional, até mesmo antes.
As desordens da economia, assim como o ritmo precipitado das evoluções
científicas e técnicas, determinam uma aceleração generalizada da temporalidade
social. Por causa disso é que os indivíduos e os grupos
não se deparam mais com saberes estáveis, com classificações de conhecimentos
herdadas e confortadas pela tradição, mas sim como um saber-fluxo caótico, cujo
curso é difícil de prever e no qual a questão agora é aprender a navegar. A relação intensa com o aprendizado, com a
transmissão e a produção de conhecimentos não está mais reservado para uma
elite, mas diz respeito à massa das pessoas em sua vida diária e em seu
trabalho.
Portanto, está superado o velho esquema segundo o
qual se aprende na juventude um ofício que será exercido pelo resto da vida. Os indivíduos são chamados a mudar de profissão várias vezes
em sua carreira e a própria noção de ofício está tornando-se cada vez mais
problemática. Melhor seria raciocinar
em termos de competências variadas, das quais cada um possuiria uma coleção
singular. Cabe às pessoas,
então, manterem e enriquecerem sua coleção de competência ao longo de sua vida.
Essa abordagem leva a questionar a divisão clássica entre período de
aprendizado e período de trabalho (pois se aprende o tempo todo), bem como o
ofício enquanto principal modo de identificação econômica e social das pessoas.
Com a formação contínua, a formação em alternância,
os dispositivos de aprendizado na empresa, a participação na vida associativa,
sindical, etc., está constituindo-se um continuum entre tempo de formação, por
um lado, e tempos de experiência profissional e social por outro. Dentro desse continuum,
um lugar está sendo aberto para todas as modalidades de aquisição de
competências (inclusive a autodidaxia).
Para uma parcela crescente da população, o
trabalho não é mais a execução repetitiva de uma tarefa prescrita, mas sim uma
atividade complexa, na qual a
resolução inventiva de problemas, a coordenação dentro de equipes e a
gestão de relações humanas ocupam lugares não-desprezíveis. A transação de informações e conhecimentos
(produção de saberes, aprendizado, transmissão) é parte integrante da atividade
profissional. Com o uso da hipermídia, dos sistemas de simulação e das
redes cooperativas de aprendizado cada vez mais integrados aos postos de
trabalho, a formação profissional das empresas tende a integrar-se à produção.
A antiga relação com a competência era substancial e
territorial. Os indivíduos reconheciam-se por seus diplomas, estes últimos
ligados a disciplinas. Os empregados de escritório eram identificados por
postos, que declinavam ofícios, que preenchiam funções. No futuro, tratar-se-á
muito mais de gerir processos, trajetos e cooperações. As
competências variadas, adquiridas pelas pessoas de acordo com seus percursos particulares, irão alimentar memórias
coletivas. Acessíveis em linha, essas memórias dinâmicas em suportes
numéricos atenderão, por sua vez, a necessidades concretas, aqui e agora, de
indivíduos e grupos em situação de trabalho ou aprendizado (é a mesma coisa).
Assim, à virtualização das organizações empresas «em rede» corresponderá em
breve uma virtualização da relação com o conhecimento.
Evidentemente,
é para esse novo universo do trabalho que a educação deve preparar. Simetricamente, no entanto,
deve-se admitir também o caráter educativo ou formador de muitas atividades
econômicas e sociais, o que levanta evidentemente o problema de seu
reconhecimento ou validação oficial, sendo
que o sistema de diplomas parece cada vez menos adequado. Por
outro lado, o tempo necessário para a homologação de novos diplomas e para a
constituição dos currículos que levam a eles não está mais em fase com o ritmo
de evolução dos conhecimentos.
Pode parecer banal afirmar que todos os tipos de
aprendizado e formação devem poder dar lugar a uma qualificação ou a uma
validação socialmente reconhecida. Atualmente, entretanto, estamos muito longe
disso. Um grande número de processos vigentes em curso
por meio de dispositivos formais de formação contínua, para falarmos apenas das
competências adquiridas durante as experiências sociais e profissionais dos indivíduos,
não geram hoje nenhuma qualificação. A relação com o saber emergente,
cujas grandes linhas eu esbocei, traz o questionamento da estreita associação
entre duas funções dos sistemas educativos: o ensino e o reconhecimento dos
saberes. Como os
indivíduos aprendem cada vez mais fora das fileiras acadêmicas, cabe aos
sistemas de educação implantarem procedimentos de reconhecimento dos saberes e
know-how adquiridos na vida social e profissional. Para esse fim, serviços públicos que explorassem em grande
escala as tecnologias da multimídia (testes automatizados, exames em
simuladores) e da rede interativa (possibilidade de fazer testes ou fazer
reconhecer suas aquisições com a ajuda de orientadores, monitores e
examinadores em linha) poderiam aliviar
os docentes e as instituições educacionais clássicas de uma tarefa de controle
e validação menos «nobre» — mas ainda necessária — do que o acompanhamento
dos aprendizados. Graças a esse grande serviço descentralizado e aberto de
reconhecimento e validação dos saberes, todos os processos, todos os
dispositivos de aprendizado, até os menos formais, poderiam ser sancionados por
uma qualificação dos indivíduos.
A evolução do sistema de formação não pode ser dissociada da
evolução do sistema de reconhecimento dos saberes que o acompanha e pilota. A título de exemplo, sabe-se que os exames é que
estruturam, a jusante, os programas de ensino. Utilizar todas as tecnologias novas na
educação e formação sem nada mudar nos mecanismos de validação dos aprendizados
equivale, ao mesmo tempo, a aumentar os músculos da instituição escolar e a
bloquear o desenvolvimento de seus sentidos e cérebro.
Uma desregulação controlada do atual sistema de
reconhecimento dos saberes poderia favorecer o desenvolvimento das formações
alternadas e de todas as formações que conferissem um lugar importante à
experiência profissional. Ao autorizar a invenção de
modos originais de validação, tal desregulação encorajaria também as pedagogias
pela exploração coletiva e todas as formas de iniciativas a meia distância
entre a experimentação social e a formação explícita.
Semelhante evolução não deixaria de gerar
interessantes retroefeitos para certos modos de formação de tipo escolar,
freqüentemente bloqueados em estilos de pedagogia pouco aptos para mobilizar a
iniciativa, por orientar-se apenas pela sanção final do diploma. Numa perspectiva ainda mais ampla, a desregulação controlada
do reconhecimento dos saberes aqui referida estimularia uma socialização das
funções públicas da escola. Com efeito, ela permitiria que todas as
forças disponíveis concorressem ao acompanhamento de trajetos de aprendizados
personalizados, adaptados aos objetivos e às diversas necessidades dos
indivíduos e das comunidades implicadas.
Os desempenhos industriais e comerciais das empresas,
das regiões, das grandes zonas geopolíticas estão em estreita correlação com
políticas de gestão do saber. Conhecimentos, know-how, competências são hoje a
principal fonte da riqueza das empresas, das grandes metrópoles, das nações. Ora,
vive-se hoje importantes dificuldades na gestão dessas competências, tanto no
nível de pequenas comunidades como no das regiões. Do lado da demanda,
observa-se uma inadequação crescente entre as competências disponíveis e a
demanda econômica. Do lado da oferta, um grande número de competências não são
nem reconhecidas, nem identificadas, mais especialmente entre os que não
possuem um diploma. Esses fenômenos são particularmente sensíveis nas situações
de reconversões industriais ou de atraso de desenvolvimento de regiões
inteiras. Deve-se, paralelamente aos diplomas, imaginar modos de reconhecimento
dos saberes que possam prestar-se para uma visualização em rede da oferta de
competência e a uma pilotagem dinâmica retroativa da oferta pela demanda. Para
tanto, a comunicação através do ciberespaço pode ser uma grande ajuda.
Uma vez aceito o princípio segundo o qual toda e qualquer aquisição de competência
deve poder dar lugar a um explícito reconhecimento social, os
problemas da gestão das competências, tanto na empresa como no nível das
coletividades locais, estarão a caminho, se não de sua solução, ao menos de sua
mitigação.
16/05/1998
[1] * Trecho da obra «Cybercultura» a ser publicada a 21 de novembro pela editora Odile Jacob (frança).
[2] Ver ao final.
[3] Transcrito (02/2004) por Klauss Athayde, Professor Municipal em Belo Horizonte, MG; www.klauss.com.br; kathayde@bol.com.br.
[4] (em itálico): duvidas quanto à grafia, na citação.
[I] (1) Open and Distance
Learning, Critical Success Factors. Accès à la formatoin à distance: clés pour
un développement durable. Editors: Gordon Davies & David Tinsley. Atas,
Conferência Internacional, Genebra, 10 a 12 de outubro de 1994, 203 páginas.
[II] (2) Todos os especialistas das políticas de educação reconhecem o papel essencial da qualidade e da universalidade do ensino elementar para o nível geral de educação de uma população. Além disso, o ensino elementar abarca todas as crianças, enquanto o ensino do segundo grau e, sobretudo, o superior envolvem apenas parte dos jovens. Ora, o segundo grau e o superior públicos, que custam muito mais do que o ensino elementar, são financiados pela totalidade dos contribuintes. Existe aí uma fonte de desigualdade particularmente gritante nos países pobres. Ver mais especialmente, de Sylvain Lourié, Ecole et tiers monde, [Escola e Terceiro Mundo], Ed. Flammarion, Paris, 1993.